Era um domingo de sol em Lisboa. Estava no parque com amigos conversando e percebemos que seria interessante que houvesse algo a mais no Forró que o tornasse um ambiente melhor.
Não que já não seja um ambiente bacana, mas será que não dá pra melhorar?
Em quase todos os festivais, já temos as equipes e os cartazes de Safe Space com o fim de criar um ambiente mais seguro, mas será que isso é suficiente?
Ora, quem sou eu para afirmar qualquer coisa, né? Sou professor de línguas e apenas um forrozeiro como vários que me leem aqui. A tarefa me parecia além das minhas capacidades.
Mas e se eu pudesse ouvir um monte de gente e, com esses dados, tentasse abordar os problemas que precisam de uma solução? Ah sim, então tá bem, aí já fica melhor.
Seguindo essa ideia, criei um “Questionário sobre comportamento no Forró”, e depois de inesperadas 216 respostas, o resultado é o que vou contar para vocês agora.
Ao trabalho!
Começando com a demografia, tivemos cerca de 66% de mulheres e 33% de homens a responder, o que já nos dá uma ideia da importância que cada gênero dá para as questões comportamentais no Forró.
Ao perguntar se os papéis de leader e follower estão associados com os papéis de gênero, ufa, 86% dos participantes indicaram que uma coisa não tem nada a ver com a outra. Ok, começamos bem.
E se perguntássemos o quão confortáveis estão as mulheres ao dançar com outras mulheres? Nessa pesquisa, descobrimos que 94,5% delas não têm o menor problema com isso, mas uma minoria de 4,8% afirmou que o conforto só ocorre quando dançam com amigas.
Show, e os homens? Apenas 60% se sentem confortáveis ao dançar com outros homens e outros 24% somente dançam com amigos. E o resto? O resto de 16% afirmou, no entanto, que não se sente confortável de maneira alguma ao dançar com outro homem. Ok, ainda precisamos de tempo pra mudar isso.
Agora entramos nas perguntas mais específicas.
Algumas eu desenhei de forma que os participantes pudessem escolher entre as opções dadas e outras foram perguntas mais abertas, em que as pessoas podiam responder o que lhes apetecia.
Então, o que é uma boa dança? De acordo com 77% dos participantes, uma boa dança precisa ter conexão.
Ótimo que a gente reconheça isso, apesar de ainda termos que definir melhor o que de fato significa estar conectado com o parceiro ao dançar.
Outros fatores de igual importância que também foram mencionados:
Musicalidade;
Empatia com o desnível técnico entre os bailarinos;
Abraço confortável;
Sensação de segurança para cometer erros;
Toque apropriado e respeitoso;
Criar a dança juntos;
E que rufem os tambores para o último fator que caracteriza uma boa dança… prprrrrrprrprr…
Cheiro bom!
Pessoal, tomem banho, mantenham o hálito fresco e usem desodorante e roupas limpas! Não quer gerar lixo e não quer financiar a indústria farmacêutica? Usem desodorantes naturais, mas não deixem de usar.
Moving on. Quando perguntamos se as pessoas se sentem livres para negar uma dança, 57% afirmaram que não.
Isso não me pareceu um bom sinal. Num ambiente de adultos livres que dançam consensualmente, ninguém deveria se sentir obrigado a dançar com ninguém.
Quais os motivos para não negar uma dança então? A maioria esmagadora disse que não quer magoar o outro.
Tadinhe né, ele/ela não pode receber um não. Pessoal, e aquela coisa da gente se responsabilizar pelas nossas emoções? É sério que estamos entrando em danças que não queremos pra proteger o sentimento do coleguinha?
Na verdade, o que acontece é que as pessoas têm motivos variados para negar uma dança e somente um deles tem a ver com a sua dança não ser agradável para o outro.
E ainda que seja por esse motivo que seu convite foi negado, não precisamos levar isso pro lado pessoal, a dança simplesmente às vezes não encaixa. Eu tenho uma amiga queridíssima em Lisboa com a qual nunca tive uma boa conexão na dança. Acontece ué, quem sabe um dia.
Você quer dançar com uma pessoa que não gosta de dançar com você, mas que aceita seu convite por obrigação? Eu não quero, qual o sentido disso?
Enfim, quais são os outros motivos que fazem as pessoas negarem uma dança?
Cansaço;
O convite foi ruim;
A pessoa já demonstrou anteriormente ter um toque inapropriado e desrespeitoso;
Higiene ruim;
O parceiro está bêbado;
O desnível técnico é muito grande;
As intenções são duvidosas;
A pessoa convidada quer dançar com outra pessoa naquela hora.
Mas e se a dança já começou e a experiência não está sendo boa? 37% dos participantes afirmaram que continuam dançando, mesmo sentindo-se desconfortáveis. Outros 27,3% geralmente comunicam o problema e dão uma chance, mas se o problema persistir, interrompem a dança.
Claro, às vezes a pessoa realmente não percebe que está fazendo muita força ou abraçando muito perto, então acho que é importante normalizarmos essa comunicação verbal dentro da dança e eventualmente a interrupção também.
De novo, ninguém é obrigado a dançar com ninguém.
Outra pergunta interessante que fizemos foi: o que desperta tuas inseguranças no Forró?
O parceiro dança muito bem;
Medo de estar entediando o parceiro;
Falta de conexão na dança;
Pressão para propor passos variados;
O parceiro me corrige;
Sair do ritmo;
Segundas intenções;
Não conseguir seguir o que o leader propõe.
Essa parte da insegurança é interessantíssima, né? TODOS NÓS sentimos algum tipo de insegurança na dança, é quase inevitável. Por mais avançado que você seja, sempre há alguém mais avançado e que nos intimida, então isso parece ser uma luta de todos nós. Até os professores se sentem inseguros ao dançar com outros professores.
Sobre isso, acho que há TRÊS coisas que precisam ser ditas:
1 — Para os iniciantes: se joguem, pratiquem, estejam na pista. Só fazer aulas não vai ser suficiente para evoluir a dança. Invistam bastante na noção de ritmo e no conforto do abraço, isso é determinante para uma dança boa e não necessariamente vomitar passos diferentes fora da música.
Se ainda se sentirem desconfortáveis, abram o jogo com o parceiro antes do convite, sejam vulneráveis, do tipo: “olha, sou iniciante, estou aprendendo ainda, tudo bem? Pode me dar dicas depois se quiser.”
Pronto, a pessoa já não espera uma dança super complexa, ela te recebe com empatia porque sabe que já esteve no seu lugar, é gentil contigo e não tenta passos mirabolantes. Acho que não há melhor remédio para a insegurança do que a vulnerabilidade.
2 — Para os avançados: uma reflexão. Será que, como bailarinos experientes, não deveríam assumir uma responsabilidade maior pela comunidade a que pertencem?
Todos dizemos trabalhar pelo crescimento do Forró, mas será que estamos lutando tanto assim?
Minha sugestão é: separe um pedaço do baile para dançar com pessoas menos experientes que você. Você já esteve no lugar delas, já foi iniciante e sabe a importância de dançar com uma pessoa mais experiente para avançar sua dança.
Se existe uma reclamação recorrente de que os bailarinos avançados se fecham em seus grupinhos, algo precisa ser feito. Nós já concordamos que ninguém é obrigado a nada, mas acho que em alguma medida, bailarinos avançados têm alguma responsabilidade pela cultura forrozeira também, pela inclusão dos iniciados, pela democratização do Forró.
Não custa muito o seu tempo, significa bastante para os iniciantes e é o início da resolução desse problema.
3 — Para as comunidades em geral: já sabemos que para além das aulas, precisamos sempre de festas, para onde o pessoal vai para dançar, se divertir, curtir a noite etc.
Mas também precisamos criar espaços para a prática de dança, onde os alunos têm tempo para repetir passos, trocar com os colegas de classe, revisar o conteúdo e fazer exercícios.
Essa parte de estudo é essencial para nosso avanço e nem sempre há espaço para isso nos bailes, onde temos outro tipo de energia e proposta. Com mais espaços e horários organizados para os alunos praticarem, talvez o ambiente do baile se torne mais descontraído e relaxado.
Bom, para a primeira parte dessa análise, é isso que nós temos.
Na próxima semana, veremos o que nossos participantes acham sobre os problemas que as mulheres e os homens enfrentam no Forró; sobre assédio; se o Forró é um ambiente machista e, por fim, o que podemos fazer de forma prática para melhorar o Forró.
Tá bem?
Então tá bem.
Até a próxima!
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